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Impactos da inteligência artificial nas empresas

Com o avanço da IA, cerca de 20% dos trabalhadores estão em posições mais vulneráveis, com alto risco de substituição, e outros 20% podem ser beneficiados, diz a FGV IBRE

O uso da inteligência artificial (IA) vem se tornando cada vez mais popular, acelerando transformações no mercado de trabalho. Com presença crescente nas empresas e no cotidiano profissional, a tecnologia tem alterado a forma como tarefas são executadas, profissões são estruturadas e carreiras são construídas.

Dados do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE) mostram a dimensão desse impacto: 29,8 milhões de brasileiros, o equivalente a 30% da população ocupada, já estão expostos, em algum grau, à inteligência artificial generativa (IA Gen), subconjunto da IA focado em criar novos conteúdos (textos, imagens, áudios, vídeos e códigos) a partir de padrões aprendidos em grandes conjuntos de dados.

Desemprego

Esse cenário já começa a se refletir de forma concreta nas grandes empresas de tecnologia, que têm promovido cortes e reestruturações em meio ao avanço da IA. A Amazon, uma das maiores empresas de tecnologia e varejo do mundo, confirmou, em janeiro deste ano, o corte de 16 mil vagas corporativas, concluindo um plano de cerca de 30 mil demissões iniciado em 2025, com o objetivo de reduzir camadas hierárquicas e tornar a operação mais ágil, por conta do uso de IA.

O movimento se repete em outras gigantes do setor. A Oracle, uma das maiores empresas de tecnologia do mundo, iniciou uma rodada de desligamentos associada à reestruturação interna e ao aumento dos investimentos em inteligência artificial e computação em nuvem. Já empresa proprietária do Facebook, Instagram e WhatsApp, a Meta Platforms, Inc., anunciou a demissão de aproximadamente 10% de sua força de trabalho, além do encerramento de milhares de vagas abertas, em meio à corrida global por liderança no desenvolvimento dessas tecnologias.

Estratégia

O conjunto desses movimentos indica uma mudança estrutural na forma como as empresas organizam suas equipes, com menos camadas intermediárias, maior uso de automação e exigência crescente por produtividade. Essas transformações, no entanto, não são necessariamente negativas e vêm sendo incorporadas por empresas como estratégia para aumentar a eficiência e ampliar resultados. É o caso da startup pernambucana Mais Milhas, que passou a integrar IA aos seus processos.

O CEO da empresa, Luiz Felipe Soares, explicou que a adoção da tecnologia partiu de uma mudança de visão sobre o papel da IA nos negócios.

“Já tínhamos um site que funcionava de forma convencional, como os demais. Mas tudo começou a mudar quando eu fiz uma viagem à China e percebi que eles estão muito à frente em termos de integração e uso de tecnologia”, afirmou.

Segundo o executivo, o cenário atual representa uma nova etapa no uso da IA dentro das empresas.

“Houve uma primeira onda, com muita gente testando ferramentas para criar textos, músicas e melhorar tarefas. Mas agora começou uma nova fase, que é a reestruturação das empresas por meio da IA”, analisou.

A partir dessa percepção, a Mais Milhas iniciou um processo de reformulação interna, com foco na automação de fluxos e na reorganização das operações.

“A gente começou a reestruturar todos os processos, automatizar tudo, e o ganho foi muito rápido. De um mês para o outro, tivemos um aumento de cerca de 30% no faturamento.”

O avanço também se refletiu no desenvolvimento de novos produtos e soluções. Em um curto intervalo de tempo, a empresa ampliou sua estrutura digital e criou novas plataformas para atender diferentes públicos.

“Foram mais de 150 mil linhas de código. Em um mês, a gente construiu um conjunto de plataformas que levaria um ano com uma equipe de quatro a seis desenvolvedores trabalhando em tempo integral”, explicou.

Quadro

Apesar da intensificação do uso de tecnologia, Luiz Felipe ressalta que não houve redução no quadro de funcionários. A principal mudança ocorreu na dinâmica de trabalho das equipes, especialmente na área comercial.

“A IA assumiu tarefas operacionais que antes ocupavam o time. Hoje, ela analisa dados, aprova processos automaticamente e até entra em contato com clientes. Com isso, os profissionais ficam focados no que realmente importa: fechar negócios e vender”, disse.

Para o CEO, a IA não elimina a necessidade do trabalho humano, mas redefine sua função dentro das empresas.

“Ela veio para potencializar o trabalho. Dá mais suporte, mais informação e mais capacidade de execução. O profissional continua sendo essencial, mas precisa saber usar essas ferramentas a seu favor”, concluiu.

Aproximadamente 20% dos trabalhadores estão em posições mais vulneráveis, com alto risco de substituição pela tecnologia, segundo dados do FGV IBRE. Outro grupo, de tamanho semelhante, pode se beneficiar diretamente desse avanço. Nesses casos, a IA atua como ferramenta de apoio, ampliando a produtividade e abrindo espaço para ganhos de desempenho e, potencialmente, de renda.

Para a mentora e consultora empresarial Aline Portela, o avanço da IA tem acelerado um movimento de transformação nas funções profissionais, principalmente nas atividades consideradas mais operacionais.

“Quando a gente fala em automatizar processos por meio da inteligência artificial, está falando de otimizar o tempo para que o profissional possa focar na sua expertise, naquilo que a tecnologia não consegue substituir”, afirmou.

Segundo Aline, o avanço do uso da IA tem levado empresas a priorizarem profissionais capazes de unir competências técnicas e habilidades interpessoais.

“Hoje, o mercado busca profissionais que saibam se comunicar, construir relacionamento e se posicionar de forma estratégica. Não basta apenas ter conhecimento técnico, é preciso saber mostrar valor e gerar conexão”, afirmou.

Avanço

Para os jovens que estão ingressando nesse cenário, a consultora afirma que as habilidades comportamentais ganharam ainda mais importância diante do avanço da automação.

“A faculdade prepara para as competências técnicas, mas hoje é preciso desenvolver habilidades comportamentais, como comunicação, liderança e autogerenciamento. Com tanta informação e tantos estímulos, saber administrar o próprio tempo e as próprias emoções virou um diferencial”, afirmou.

Aline avalia que, apesar das mudanças e do avanço da automação, a inteligência artificial não elimina completamente as oportunidades de trabalho, mas modifica as demandas do mercado.

“Ao mesmo tempo em que algumas funções deixam de existir, outras estão sendo criadas. Profissões ligadas ao marketing digital, produção de conteúdo e tecnologia surgiram justamente para atender novas demandas desse mercado mais dinâmico”, afirmou.

Para trabalhadores que precisam se reinventar profissionalmente, a recomendação é buscar direcionamento e qualificação.

“Existe hoje uma infinidade de possibilidades e isso muitas vezes gera insegurança. O apoio de um mentor, consultor ou profissional especializado pode ajudar a identificar competências, criar novas oportunidades e direcionar melhor essa transição de carreira”, concluiu.